“PERDEU UM OLHO, MAS NÃO A Voz: A HISTÓRIA DE LÚCIA QUE O PAÍS JÁ NÃO PODE IGNORAR”
- Portal Destaques
- 23 de nov.
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Lúcia, 32 anos, carrega no rosto e na alma um silêncio que pesa mais do que a própria dor. Durante muito tempo acreditou ter encontrado segurança no homem com quem dividia o teto — um fiscal de áreas de conservação, habituado a proteger a fauna bravia, mas incapaz de proteger a própria família.
Por: Redacção l Portal Destaques.ao
A relação, que um dia foi tranquila, começou a ruir quando o marido assumiu um novo emprego que lhe subiu à cabeça como um vento mau. Vieram as agressões, primeiro leves como sombra, depois duras como pedra. A culpa? O fato de Lúcia não lhe ter dado um filho rapaz, como se o destino do seu ventre fosse crime.
No dia 2, tudo atingiu o limite. O homem voltou para casa embriagado. O jantar estava servido, mas ele recusou a comida — e a paz. Seguiu até ao quarto onde as filhas dormiam e começou a agredi-las, despejando nelas a frustração de ser motivo de zombaria entre os amigos por “não ter filhos, apenas filhas”.
Lúcia, como tantas vezes antes, correu para defendê-las. Mas naquele instante começou o horror que a cidade ainda tenta nomear. Entre empurrões, murros e insultos, o marido cravou os dentes no rosto da mulher, arrancando-lhe o olho direito — como se quisesse apagar a última luz que ela ainda carregava.
Hoje, sentada no quintal de chão batido, Lúcia chora. A filha mais nova, sem compreender o universo cruel dos adultos, passa a mão no rosto da mãe numa tentativa infantil de consolo. É um gesto pequeno, mas é tudo o que têm.
Entre soluços, Lúcia relembra as noites intermináveis de violência, o filho rapaz que chegou a gerar mas perdeu antes de ouvir o primeiro choro, e a peregrinação frustrante à polícia — onde nunca encontrou amparo, talvez porque o agressor veste farda e ostenta poder.
As vizinhas e amigas, que há muito testemunham a degradação daquela casa, tornaram-se agora a voz que Lúcia já não consegue sustentar. Denunciam, exigem justiça, perguntam quantas mulheres ainda precisarão perder olhos, dentes, sonhos, para que o país finalmente enxergue o que sempre esteve diante dele.
E enquanto o sol se esconde atrás das casas, Lúcia permanece ali — com um só olho, mas com a força de quem, apesar de tudo, ainda resiste. A violência tentou apagá-la, mas não conseguiu silenciar a história que agora toma conta da rua e exige resposta.











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