*INSENSIBILIDADE DO POVO, OU A PERCA DA MORAL?*
- Portal Destaques
- 20 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Por: David Matuca
19.12.2025
Assisto com profunda preocupação às reações de vários cidadãos angolanos, tanto no país como na diáspora, que manifestam alegria e chegam mesmo a festejar a morte do Deputado Fernando da Piedade Dias dos Santos, “Nandó”.
Tal comportamento ocorre apesar de o Estado angolano ter criado, no passado, um programa sob o lema “Abraçar e Perdoar” — iniciativa que, na prática, nunca produziu os efeitos desejados, pois esteve marcada por intenções meramente políticas e pelo aproveitamento estratégico do regime do MPLA, que, como tantas outras vezes, tentou ressuscitar o fantasma da guerra que ele próprio criou e iniciou.
Durante muito tempo, o MPLA manteve domínio quase absoluto sobre a comunicação social convencional — então o único meio de informação acessível à maioria da população. Nessa altura, os cidadãos limitavam-se a acreditar nas narrativas oficiais, que rotulavam o Dr. Jonas Savimbi como o homem da guerra, o mau, o diabo, o demónio, o selvagem, entre inúmeros adjetivos pejorativos.
No dia do seu assassinato, 22 de fevereiro de 2002, no Lucusse (Moxico), grande parte do povo angolano — dentro e fora do país — festejou. Contudo, com a expansão das redes sociais e o acesso mais amplo à informação, muitos factos antes ocultos tornaram-se públicos. Hoje, inúmeros angolanos conseguem vislumbrar com maior clareza as raízes do conflito armado que assolou Angola, conflito esse que começa, de forma evidente, com a traição dos Acordos de Alvor (1974), protagonizada por Agostinho Neto e pelos seus correligionários do MPLA.
É, por isso, deveras inquietante ver e ouvir cidadãos a aplaudirem a morte de um irmão, de um pai, de um chefe e de um cidadão que, independentemente das leituras políticas, também deu o seu contributo para o alcance da paz relativa que o país hoje vive. Mais inquietante ainda é tentar compreender como o angolano se tornou tão insensível, a ponto de esquecer os valores morais da nossa ancestralidade africana, segundo os quais, perante a morte — fosse de quem fosse — o povo se reunia em luto e respeito, deixando os acertos de contas e as acusações para depois do funeral.
Observa-se, assim, um novo fenómeno a instalar-se no país. Não restam dúvidas de que o desfecho desse processo aponta para *UMA NOVA ORDEM POLÍTICA, um novo governo, uma nova elite, um novo dia e uma nova realidade*. Um jubileu de independência em Angola jamais terminaria em branco.
A atual insensibilidade do povo não surge do nada; *ela é consequência direta da insensibilidade do Executivo face às necessidades mais básicas da população*:
a fome, a pobreza extrema, o colapso da educação, as falhas graves no sistema de saúde, o sequestro das instituições de justiça pelo poder executivo, bem como os discursos inflamados e ofensivos de quem deveria promover a unidade nacional e transmitir confiança e esperança num futuro melhor.
*A insensibilidade do angolano é, portanto, o reflexo da insensibilidade governativa perante direitos sistematicamente violados, vidas ceifadas, famílias destruídas e uma moral coletiva profundamente rompida*.
Se os dirigentes do MPLA não aprenderem, pelo menos desta vez — já que a morte de José Eduardo dos Santos não lhes ensinou a lição —, o atual cenário do país, evidenciado pelas reações populares à morte do General Nandó, constitui um sinal claro e inequívoco:
nenhum arsenal — canhões, metralhadoras, AKM, granadas ou qualquer outro tipo de arma — terá balas suficientes para eliminar cerca de 40 milhões de habitantes, entre idosos, crianças, mulheres, jovens e até estrangeiros, que atingiram um nível de saturação extrema face a uma forma bizarra de governar um país imensamente rico, cujas riquezas deveriam garantir, no mínimo, o pão à mesa de cada angolano.











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